Cristiane Sobral fala sobre a experiência de participar do projeto Poesia em Voz Alta

#Foto: Cícero Bezerra

Mulher, negra, periférica, atriz, professora, pesquisadora, desafiando os estereótipos. É assim que a poeta resume quem ela é e como inspira, não apenas pelo que escreve, mas também pela própria história de vida, as pessoas que encontra em seu caminho. Muitas das que estiveram no espetáculo Poesia, Memória e Resistência nas últimas duas semanas sentiram essa identificação com a poeta e com as poesias lidas durante a performance. Veja na entrevista abaixo a percepção de Cristiane sobre essa relação com o público, essencialmente os jovens, e sobre a participação no projeto Poesia em Voz Alta.


Como foi participar do projeto? Houve algum momento que te marcou mais nessas cinco apresentações?

Uma experiência enriquecedora e marcante. Foram muitos instantes memoráveis. O momento em que conheci a estudante Ruana, ganhadora de um concurso de contos. Ela me disse que se sentiu representada pela minha escrita, estava muito emocionada, lágrimas nos olhos. Esses momentos são únicos, marcantes.

Que importância essas iniciativas têm para o desenvolvimento da cultura no DF e, principalmente, para a disseminação da poesia entre o público mais jovem?

São ações fundamentais, para a fruição, fomento do pensamento crítico, do protagonismo e do empoderamento dos jovens.

O público do espetáculo era formado principalmente por estudantes. Como acredita que projetos como o Poesia em Voz Alta contribuirão para a formação escolar e cidadã deles?

Escrever é reescrever. A leitura vai além do contato com os textos, imprime nos indivíduos uma capacidade de construção do pensamento autônomo. A formação escolar não pode ser exclusivamente centrada nos conteúdos, precisa contribuir para a construção das identidades, múltiplas, diversas, em construção.

Sua história inspira muitas pessoas e não foi diferente durante as apresentações de Poesia, Memória e Resistência. A que você atribui esse identificação do público que participou do projeto e como isso pode ser usado a favor desses jovens e da poesia?

Escrevo a partir do meu lugar de fala e de vivência, com um ponto de vista de uma mulher, negra, periférica, atriz, professora, pesquisadora, desafiando os estereótipos. Os leitores, muitos deles, têm interesse em conhecer outras versões da história única, masculina, canônica, eurocêntrica normalmente apresentada majoritariamente nos textos literários nacionais.

Na sua avaliação, o que a poesia tem a ver com memória e resistência?

A poesia é ação, o verbo se faz carne, traduz, com seus signos, a trajetória dos seres humanos nesse planeta, construindo uma estética da sensibilidade, revela silêncios secularmente protegidos pelas estruturas hegemônicas. A poesia conta histórias, revela nosso jeito de ser e de viver, dá visibilidade e anuncia a nossa subjetividade. Existimos, resistimos, produzimos rasuras no cânone.

assinaturasAPRESENTAÇÃOPROMOTORA