​O poeta Alexandre Pilati fala sobre a participação no projeto Poesia em Voz Alta

#

Na última sexta-feira (2), chegou ao fim o primeiro ciclo de apresentações do projeto Poesia em Voz Alta. Os poetas convidados compartilharam, desde a primeira performance, a surpresa com a participação do público, formado, principalmente, por estudantes da rede pública. Alexandre Pilati, um dos escritores homenageados no espetáculo Poesia para Brasília, acredita que a experiência contribuiu para enriquecer o repertório dos estudantes e também as experiências com os próprios textos. “As respostas foram muito boas, muitas interpretações surpreendentes de textos meus, que eu nunca tinha visto.”

Para ele, essa é a uma das melhores formas de tratar a literatura sem as amarras do ensino formal, com mais liberdade, e que pode ser adotada em alguns momentos pelas escolas. “Evidentemente que não pode ser feito cotidianamente, mas que seja feito de maneira regular, para que os alunos tenham contato com um aspecto da literatura que é mais vivo do que aquilo que eles veem no quadro negro”, diz. Veja a entrevista completa com o poeta, que é pesquisador e professor na área de Letras e autor de obras como sqs 120 m² com dce e e outros nem tanto assim.


O que achou da proposta do projeto e da interação com o público?

A proposta é excelente, visa a interlocução dos autores da poesia com os jovens, os adolescentes, os professores. É uma ideia muito boa, porque a poesia, em geral, é vista de uma maneira muito ritualizada, muito protocolar e burocrática, com uma preocupação com a avaliação. Então o aluno nem sempre fica à vontade. O fato de você ter uma atriz e um músico interpretando o texto desperta ainda mais o interesse deles e o resultado foi excelente. As respostas foram muito boas, muitas interpretações surpreendentes de textos meus, que eu nunca tinha visto, visões inusitadas. Acho que enriqueceu muito o repertório deles de leitura e também as nossas experiências com os nossos próprios textos.

Durante um dos espetáculos, você disse que acredita que a escola é o melhor espaço para a literatura, mas que é preciso, ao mesmo tempo, lutar pela “desescolarização” da literatura, para que ela invada outros espaços. Acha que essa interlocução com o público é uma das formas de fazer isso?

Sim, com mais liberdade, menos cobrança, menos presença desses rituais próprios da escola, como o controle de tempo. Em geral, o trabalho com a arte tem um tempo diferente. Quando eu falo que é preciso “desescolarizar” o ensino de literatura, é porque é preciso tirar um pouco dela essas amarras, que são normais, e que servem para o ensino de outras disciplinas. Por exemplo, convidar os alunos a produzirem, a lerem, a expressarem suas opiniões, porque é isso que a arte provoca na gente, ela nos provoca a emitir opiniões, a expressar nossos sentimentos. Essa conversa é muito importante, isso deveria ter mais espaço na escola. Evidentemente que não pode ser feito cotidianamente, mas que seja feito de maneira regular, para que os alunos tenham contato com um aspecto da literatura que é mais vivo do que aquilo que eles veem no quadro negro.

Os estudantes perguntaram muito sobre como é a sua produção, de onde vem a inspiração. Para você isso também era um questionamento frequente quando começou a escrever?

A inspiração é uma das coisas com que você tem que aprender a lidar, porque ela, muitas vezes, é muito boa e, em outras, atrapalha a concepção do poema. O poema é feito dessa alquimia entre o trabalho e a inspiração. Você precisa da inspiração para criar, mas ela só se torna arte mesmo se você conseguir dar um fim para ela, acabado, em alguma medida racional, artesanato, como disse o Bosco (João Bosco Bezerra Bonfim, poeta e mediador do espetáculo) aqui. Essa é uma pergunta muito comum entre os adolescentes e eu sempre digo que a inspiração é da vida. Os autores de literatura, os artistas em geral, são pessoas que têm atenção ao seu ambiente, tentam entendê-lo e interpretá-lo, mas tudo parte dessa atenção.

No seu dia a dia, como você acessa todas as camadas do poema, como foi feito aqui nos espetáculos?

O interessante é que essas camadas podem ser separadas. Eu vi gente fechando os olhos e prestando atenção na musicalidade, nas palavras, às vezes faziam uma cara de interrogação sobre uma palavra que não entendia. O poema tem um todo que é uma espécie de mensagem que ele manda para o leitor. Agora, eu acho que aprender a ler a poesia é prestar atenção nessas camadas separadas, como elas se compõem separadamente e como elas contribuem para esse todo que é o poema. Acho que isso é um hábito. Se os alunos tiverem mais oportunidades de fazer isso, é claro que eles vão tomando mais intimidade e sabendo fazer melhor. Lê melhor quem lê mais, você fica mais aberto para o que a literatura tem a te dizer.


assinaturasAPRESENTAÇÃOPROMOTORA