Poesia, Memória e Resistência impressiona pela atualidade e conexão com o cotidiano dos brasileiros

#A poeta Cristiane Sobral (E) acompanhou a apresentação desta de sexta-feira (23) - Foto: Cícero Bezerra

Estreou nesta sexta-feira (23) o terceiro espetáculo do projeto Poesia em Voz Alta. Os poemas lidos em Poesia, Memória e Resistência impressionaram pela atualidade e a conexão que proporcionaram com o cotidiano de muitos dos alunos que compunham a plateia. Eles vieram do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 2 da Estrutural para prestigiar a apresentação, que, além de obras mais recentes, como as da própria Cristiane Sobral e as de João Bosco Bezerra Bonfim, incluiu textos de Luís Gama e Gonçalves Dias, escritos no século 19. Com essa derradeira série, no dia 30 de setembro, terão inteirado quinze apresentações dos três espetáculos patrocinados pelo FAC.

A apresentação começou com as interpretações da atriz Julie Wetzel dos poemas selecionados, acompanhada da flauta e do violão do músico Toninho Alves. Os versos de Gonçalves Dias em Canto de Piaga foram os primeiros lidos.

“Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
[...]
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se.
Vendo os vossos quão poucos serão”


Trechos de Canto de Piaga, Gonçalves Dias

A mão e luva, de Cristiane Sobral, foi dito logo em seguida e, depois, Crônica 1, de João Bosco Bezerra Bonfim, que teve o refrão repetido pela plateia, acompanhando a atriz Julie Wetzel.

“que cabe na cozinha? lenha
que revela a fumaça? palma
que sobra das cinzas? alma”

Trecho de Crônica 1, de João Bosco Bezerra Bonfim

A brincadeira do espetáculo é mostrar ao público as camadas de sentimento que podem ser acessadas com um poema. Todos são questionados no fim: o que eu entendi? O que a música provoca? O que eu senti? No fim da apresentação do poema de Luís Gama, Sortimento de gorras, que fala sobre política, leis e Justiça, muitos acharam que tivesse sido escrito mais recentemente, por ter se mantido surpreendentemente atual.

“Se a Justiça, por ter olhos vendados,
É vendida, por certos Magistrados,
Que o pudor aferrando na gaveta,
Sustentam que o Direito é pura peta;
E se os altos poderes sociais;
Toleram estas cenas imorais;
Se não mente o rifão, já mui sabido:
Ladrão que muito furta é protegido –
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,
Onde possa empantufar a larga pança!”


Trecho de Sortimento de gorras, de Luís Gama

João Bosco, que também é mediador e curador do espetáculo, explica que a seleção dos poemas se deu a partir da poeta convidada, que desenvolveu a voz negra e feminina, temáticas que se destacam no tema central: memória e resistência. A intenção é trazer a poesia, a obra em si, principalmente aos estudantes dos ensinos fundamental e médio, desmistificando a ilusão de que não existe atualidade na poesia. No caso desta apresentação, o foco foi trazer a raiz mais excludente da sociedade brasileira.

Um dos pontos altos da apresentação veio no fim, quando Cristiane Sobral, que também é atriz, interpretou o poema dela Não vou mais lavar os pratos. A poeta foi aplaudida efusivamente e agradeceu com reverência ao público. Clarice Rodrigues, 19 anos, gostou da apresentação. “Achei muito interessante. Retratou muito bem a vida dos brasileiros”, afirmou. Ela, que é aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), achou importante encontrar na literatura textos que falem sobre problemas que ela enfrenta no dia a dia, como a discriminação racial.


#Estudantes do CEF 2 da Estrutural foram os convidados do espetáculo - Foto: Cícero Bezerra #A atriz Julie Wetzel interpretou os poemas do espetáculo - Foto: Cícero Bezerra

A professora de português do CEF 2 da Estrutural Débora Elias ficou encantada com o espetáculo. O fato de terem sido convidados para o evento, o que ocorre com pouca frequência, foi um dos pontos destacados por ela. “Eles precisam desmistificar essa ideia de que são aquela classe que não merece nada”, destacou, e acredita ainda que o evento possa contribuir para despertar futuros talentos na poesia.

O presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE), Fabio de Sousa Coutinho, agradeceu a todos que compareceram durante o discurso de abertura e apresentou a casa, ressaltando a presença do poeta Anderson Braga Horta, homenageado no primeiro espetáculo do projeto, Poesia para Brasília. “Vocês estão hoje na mais antiga instituição cultural da cidade, casa que foi fundada em 1963”, disse. “Alguém que fundou a casa naquele remoto 21 de abril de 1963 está presente aqui hoje, é o grande poeta brasileiro Anderson Braga Horta”, completou. Anderson Braga Horta elogiou a iniciativa. “A experiência é interessantíssima. Você vê o tipo de recepção diferente e o interesse manifestado por um grupo de jovens estudantes”, disse.

Cristiane Sobral também comentou a primeira apresentação de Poesia Memória e Resistência e disse ser importante que inciativas como essa se disseminem. “Eu percebo que os estudantes estão sempre muito interessados, muito abertos e têm mesmo essa sede de ter um encontro com as palavras, com a literatura. Pude perceber que eles estavam muito interessados em fazer perguntas, em apresentar os seus sentimentos em relação ao impacto que eles tiveram com os textos”, avalia. “Tudo isso demonstra que a literatura tem espaço nesse ambiente escolar, que ela pode sim fomentar outras práticas educativas, contribuir para a construção da identidade desses estudantes.”

“Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito.
Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito.
Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética
A estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros mãos bem mais macias que antes e sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto
Qualquer coisa
Não vou mais lavar
Nem levar.
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Sinto muito
Agora que comecei a ler, quero entender
O porquê, por quê?
E o porquê

Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar…
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros…
Ah, Esqueci de dizer.
Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere.
Você nem me chame.
Não vou

De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar
Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada e olho a sujeira no fundo do copo
Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18, espaço duplo
Aboli
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata, cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
Está decretada a lei áurea.”

Não vou mais lavar os pratos, de Cristiane Sobral
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